NOTA:
Estas quatro composições não são, de forma alguma, uma tradução
dos sonetos que antecedem cada um dos quatro pequenos concertos
compostos por Vivaldi referentes às quatro estações do ano.
Antes tentam exprimir as sensações que, na actualidade,
o seu autor experimentou ao escutar essas admiráveis peças musicais,
não sendo possível evitar que nelas perpassassem reminiscências
dos sucessivos períodos posteriores à revolução do 25 de Abril de 1974.
A PRIMAVERA
Chegou a Primavera. Os passarinhos
voltaram a ensaiar os seus trinados.
Cantam os rios encharcando os prados
e a brisa embala as velas dos moinhos.
A luta não foi fácil. Escarninhos,
ribombam os trovões nos descampados.
Mas vão perdendo as forças, derrotados
pela festa das aves nos seus ninhos.
Já consegue o pastor adormecer.
Num sonho, com a lira a dedilhar,
puxam-no as ninfas numa alegre dança.
As árvores abanam de prazer
e o cão fiel repousa em seu rosnar.
Na Primavera renasceu a esperança.
O VERÃO
Esturricam os ânimos e as searas
sob a agressão do sol. E abrem gelhas
as árvores, os homens e as ovelhas,
cansados das vergastas e das varas.
O cuco e a rola soltam vozes raras,
o pintassilgo esvoaça e as abelhas
zumbem, enquanto o vento pelas quelhas
vem agitar, de novo, as águas claras.
Revolta-se o pastor contra os moscardos,
o camponês combate o mato agreste
e as andorinhas velam nos beirais.
A terra arável enche-se de cardos
e o temporal, que se levanta, investe
contra as hortas, os milhos e os trigais.
O OUTONO
Os vinhedos já foram vindimados.
Os cânticos celebram as colheitas
e o povo, feliz, dança, sem suspeitas
dos inimigos já acantonados.
Com vapores de Baco embriagados
e ilusões que repousam escorreitas,
negras nuvens lhes cobrem as maleitas
da firmeza nas horas sem cuidados.
Só quando um raio explode, violento,
saem a combater a chuva, o vento
e o lobo que já uiva em tom feroz.
Disparam-se fuzis com fogo aceso.
Há um grito rouco na garganta preso.
É a fera que morre? Ou somos nós?
O INVERNO
Abate-se o terror, o vento e a neve,
paralisando a água, o ar e o pão.
Velhas mágoas rebolam pelo chão,
disfarça a lua a claridade breve.
Andar na rua já ninguém se atreve.
A nortada violenta, em furacão,
derruba casas, árvores e um botão
de flor tardia que suspira leve.
Grandes nuvens de medo, de arrepio,
metralhando com balas de granizo,
matam o sonho e abrem caminho à fera.
A antevisão da morte, a fome e o frio
toldam o olhar e gelam o sorriso.
Quando será que volta a Primavera?